Borges C.

O autor por trás dos Contos de "Toca de Lobo"

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Cena 3 - Em Família

A sala estava lá me aguardando. Eu não tinha como fugir dela. Encarar Marcelo, minha mãe, pouco depois meu pai e Deus sabe lá o que mais pode acontecer ainda hoje, dia do meu aniversário – essa era a minha sina.
Desci cada degrau como se fosse o caminho para a condenação. Logo vi que estava no papel de vítima e não queria isso para mim. No patamar respirei fundo umas três vezes, mudei de postura e comportamento, vi meu orgulho e meu amor próprio voltarem ao primeiro plano como uma máscara intransponível. Com o coração amargurado e sorrindo para o mundo encarei de frente a um Marcelo que se intimidou na minha presença.
- Ainda está aí? Quer falar comigo?
Surpreendido ele demorou a se recuperar tempo o suficiente para minha mãe surgir da cozinha e também surpresa interromper o que nem começara.
- O que houve consigo filha? Marcelo disse que você chegou de taxi, chorando e se trancou em casa.
- Tive uma cólica terrível, deve ser meu corpo me cumprimentando pelo meu aniversário. – Ri olhando vitoriosa para meus interlocutores e completei. – Com cólica eu só queria estar na minha cama. Estava sozinha, não ia ficar fazendo sala ao Marcelo, não cairia bem. Também não estava afim de justificar nada, como estou tendo que fazer agora. Cólicas pré-menstruais, para mim, ainda é assunto íntimo.
Aos berros o telefone nos interrompe. Coisas de meu pai. Escolheu o aparelho mais barulhento que encontrou. Só para garantir que um só aparelho na casa seria ouvido em qualquer recanto. Foi ótimo, mas era comum ocasionalmente nos assustarmos com seus chamados.
Atendi. Adorei a oportunidade de respirar e deixar Marcelo cara a cara com Glorinha, a inspetora da Delegacia de Homicídios. Minha mãe tinha uma personalidade que só a família conhecia, todos os outros só encaravam a policial. Ela não desmontava essa carapaça nunca.
Ângela me cumprimentava pelo aniversário e ouvi a voz dela no mesmo timbre de meu sonho me perturbou muito mais do que eu poderia esperar. Me vi, inesperadamente, agendando um encontro com ela para o dia seguinte:
- Ângela, gostaria de falar com você. Posso passar ai amanhã depois das aulas.
Pareceu-me que ela esperava por isso e sorrindo me disse estar ansiosa por nosso encontro.
Esse foi o resumo principal de nossa conversa que durou mais de dez minutos. Estava tão fácil conversar com ela, mesmo sem termos qualquer assunto comum. Eu, normalmente tão reservada, estava bem à vontade.
Quando desliguei minha mãe estava dispensando o Marcelo. Mas tive tempo de escutar ele dizendo que eu voltava da casa de Lula. Quase refutei, mas consegui me conter. Me despedi dele com um aceno de mão e segui para a cozinha dando-lhe o máximo de desprezo que pude.
Como ele poderia saber de onde eu estava voltando? Fernanda! Ela é o ponto final de tudo neste meu dia. Por que logo hoje ela se voltou contra mim. Eu não poderia admitir estar tão enganada. Nada indicava qualquer possibilidade das atitudes de hoje. Nossas conversas deixavam claro que ela estava interessada num amigo de Marcelo que quase não se juntava ao nosso grupo, mas era bonito e a tratava de forma muito especial.