Borges C.

O autor por trás dos Contos de "Toca de Lobo"

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Cena 2 - Surpresas

Eu já ouvira a expressão: “o chão sumiu aos meus pés”, mas jamais imaginei que ela era literal. Entretanto foi isso exatamente que eu senti acontecer comigo enquanto olhava para a cena que se desenrolava na cama de Lula.
Lula deitado, apenas de cuecas, com o corpo nu de Fernanda sobre o seu e eles trocavam um beijo que me repugnava a alma. Afundei na falta de chão, faltava mais que o chão, faltavam fôlego e equilíbrio. Meu coração parecia que ia explodir. Foi quase impossível vencer o torpor que me dominava. Os primeiros passos aconteceram como que em câmera lenta – mais uma novidade inexplicável, conseguimos perceber o detalhe do detalhe nestes momentos com uma eterna sensação momentânea de lentidão que superada vira desespero e ansiedade.
Assim, após minha declaração de amor gritada, sofri uma sucessão de sentimentos, sensações e manifestações somatizadas por meu corpo até que me vi no escuro e sem forças quase diante do elevador. Desmaiei! Sei disso porque quando voltei a perceber a luz estava deitada no sofá, na sala de Lula. Tão logo abri os olhos, Fernanda, que eu julgava ser minha melhor amiga, deixou escapar uma nervosa gargalhada de escarnio e nos abandonou seguindo porta afora.
Estava frágil, perdida e ainda sem forças. No meu desespero em busca de uma saída honrosa, não conseguia decifrar as palavras desesperadas de Lula. Fechei os olhos. Minhas forças voltavam como se uma bateria interna estivesse sendo recarregada rapidamente. Me senti fortalecida. Levantei num supetão e cambaleando, entontecida com meu brusco movimento, segui para o elevador em uma desenfreada corrida. Para minha sorte o elevador chegou ao andar quando Lula já vinha ao meu encalço. Parecia filme de suspense. A descida iniciou quando Lula tentava abrir inutilmente a porta do elevador.
Na rua acenei e entrei num taxi assim que ele parou. Mais uma vez me senti como em um filme ao ver o carro arrancando e Lula correndo muito próximo ao veículo sem jamais alcança-lo. Só então pensei que certamente eu não teria dinheiro para a corrida em minha bolsa. O motorista ia ser obrigado a ser paciente me esperando entrar em casa para pegar dinheiro. Hoje eu estava mesmo descobrindo onde nascera algumas expressões que eu conhecia apenas da literatura. O alívio que eu experimentava enquanto o carro se afastava e deixava Lula cada vez menor me fez afundar na poltrona dura do veículo e me senti confortavelmente abraçada por ela. O tempo passou desapercebido. Em instantes estava na porta de casa. Marcelo abria a porta para que eu saltasse após dar uma nota de cinquenta ao motorista para cobrir a corrida.
Enquanto ele pegava o troco eu corria para casa onde entrei rapidamente trancando a porta atrás de mim. Subi as escadas, me joguei em minha cama e cobri os ouvidos com meu travesseiro para não ter que ouvir as batidas na porta e Marcelo gritando meu nome.
Marcelo é primo da traidora Fernanda, não conseguia atinar como ele podia estar ali - à espreita. Ele me socorrer foi a pior coisa que poderia acontecer para finalizar os episódios recentes. Ele era apaixonado por mim. Vivia babando e me cercando de atenções inaceitáveis.
Melhor esquecer. Mas eu precisava falar com alguém. Não iria ter coragem de desabafar tudo isso, ainda mais que a única pessoa que eu confiaria numa hora dessas seria Fernanda. Agora eu sabia que ela não merecia nem um pedaço sequer da amizade e confiança que nela depositei. Notei, então, que a partir da minha festa surpresa na sala de aula até aquele momento eu não falara nada com ninguém. Minhas únicas palavras – lembrei arrependida – foram “eu também te amo” para um ingrato pelo qual eu estava perdidamente apaixonada, apesar de todo ódio que eu estava imaginando sentir.
Ouço um ruído estranho. Olho em volta e me assusto ao olhar pela janela. Na árvore, pronto para pular em meu quarto, está Lula, o louco.
Uma confusão toma conta da minha mente, do meu corpo, no meu ser. Corro para fechar a janela, estou quase nua. Estou com a minha camisola preferida, a minha mais sensual camisola, fico praticamente nua pela transparência do tecido, pela provocação que o decote incorpora.
Não dá tempo. O galho frágil traz Lula para dentro do meu quarto. Estanco. Estou frente a frente com ele. Meu ódio alimenta meu desejo. Como explicar? Quanto mais a raiva me toma mais preciso provar a ele e a mim mesma meu domínio sobre aquele homem que me enlouquece o corpo fazendo a respiração se perder e o coração disparar veloz e sem qualquer ritmo em sua palpitação.
Seus braços tomam meu corpo pela cintura e me puxa decidido enquanto toma a minha boca com a sua e me submete cheia de desejo. Meu corpo é jogado na cama. Minha camisola some. O prazer está me consumindo, preciso fugir, meu cérebro está pedindo socorro, não quero deixar de ser virgem, não agora!
Parece que Deus atendeu minhas súplicas. Pela mesma janela que deu acesso a Lula surge Ângela esplendorosa. A presença dela nos assusta e Lula some como que por encanto. Ela olha em meus olhos profundamente. Ouço sua voz em minha mente. Estou confusa. Enquanto a voz de Ângela ecoa em minha mente ruídos em minha porta e vozes me atraem.
- Venha falar comigo. Agora acorde!
Sinto a coisa mais estranha que já experimentei. Meu corpo parece estar menor. Quero me encaixar nele e me sinto sobrando. Ouço minha mãe chamar meu nome forte, alto. Meu nome completo!
Agora sim acordo, salto da cama, estou com o uniforme escolar, o travesseiro cai no chão.
- Entra mãe!
- Como? A porta está trancada.
Não lembro ter trancado a porta, não tenho esse hábito. Talvez por causa do Marcelo batendo na porta da sala chamando por mim aos berros. Abro a porta.
Minha mãe entra, me abraça, meus sentimentos doloridos voltam aos borbotões, voltam as lágrimas, volta o pranto aos soluços forte. Vejo Marcelo parado na porta do meu quarto. Ele finge estar constrangido, mas é perceptível seu prazer com a queda do meu relacionamento.
Sussurro no ouvido de minha mãe bem baixinho, tão baixinho que tenho que repetir para ela entender:
- Mande esse cara embora. Que abuso; ele estar na porta do meu quarto.
- Marcelo, por favor, espere por nós na sala? – retrucou minha mãe com firmeza.
Ele pareceu desconcertado, talvez desnorteado e lentamente deu a volta e seguiu para as escadas nos deixando à sós.
Minha mãe queria saber tudo. No dia de meu aniversário, me ver chorando, machucava ela. Mas eu precisava de um momento só meu, precisava estar comigo mesma, precisava me preparar para consertar tudo aquilo sem revelar fatos desnecessários.
Aos poucos recuperei meu controle. Depois recuperei meu equilíbrio emocional. Cuidadosa expulsei, com muito carinho, minha mãe do meu quarto após convencê-la que logo estaria com ela em nossa sala onde Marcelo a esperava.
Eu tinha muito a processar, tinha que me posicionar, encarar minha mãe preocupada e um Marcelo que estava, de alguma forma, com esperanças de me conquistar. Ainda tinha meu sonho me assustando. A invasão de Lula, a estranha presença de Ângela, secretária da Agência de Investigação da família. Aquilo fora real demais. Eu estava focada mas interiormente ainda sem chão.