Borges C.

O autor por trás dos Contos de "Toca de Lobo"

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Cena 1 - Feliz Aniversário

“Nenhum de nós podemos nos permitir a inocência de esquecer que o produto da inteligência humana, sempre que possível e viável, será usado prioritariamente para exterminar vidas humanas sem preocupações com quaisquer consequências”.
 
 Toda menina sonha com seus quinze anos, mas anseiam de verdade pelos dezoito anos, pela maior idade. Eu não fui diferente. Mas nem em meus piores pesadelos poderia imaginar que esse dia seria marcado de forma tão significativa.
A comemoração estava agendada para aquele sábado, num lindo salão de festas, tudo cuidado aos pormenores: decoração, brindes de recordação, doces, bolo, cenários. Meus pais contrataram abundância de bebidas e salgadinhos para cento e cinquenta pessoas e três ambientes musicais diferentes sendo um ao vivo com duas bandas de rock que se revessariam durante as seis horas de festa.
Planejamos a chegada dos convidados às vinte horas. As vinte e três horas um pequeno e breve cerimonial para cortar o bolo. Eu imaginava que os convidados mais formais se retirariam até o fim daquele dia e na virada da meia noite estariam, basicamente, os familiares bem próximos e os meus colegas. Assim o domínio seria dos jovens. Eu usaria três trajes. O primeiro social e lindo até o cerimonial. No cerimonial eu surgiria num vestido social deslumbrante. Meia noite eu “rasgaria” o traje deslumbrante e o lindo vestido “rasgado” se transformaria num vestidinho lindo, simples, moderno, curtíssimo e sensual. Ele teria esfarrapados dando a impressão de realmente rasgado depois de retirados os apliques superiores e inferiores com apenas dois puxões.
Apesar da resistência de meu pai finalmente ficou aceito que Lula, meu namorado, “rasgaria” meu vestido no salão de danças e dali iniciaríamos a dança da nossa música: “Endless Love”. Nosso primeiro beijo aconteceu ao som desta música. Ele roubara astuciosamente minha consciência, só percebi quando estava totalmente entregue enquanto dançávamos no aniversário de minha prima. Ao final da dança veio o maior mico: fomos aplaudidos! Isso não dá para esquecer jamais.
Meu aniversário real acontecia na quinta-feira, dois dias antes da festa. Me obriguei a ir a aula. Não queria ficar sozinha em casa e meus pais iam trabalhar. Sendo filha única seria melhor curtir o dia com os colegas da escola. Cheguei cedo e sorridente, mas todos esqueceram que era o meu aniversário naquele dia. Eu me senti desconfortável. Minha autoestima ficou abalada. Sempre fui parceira e amiga, simpática e extrovertida e a atenção dos meus amigos nunca me abandonara com a indiferença daquele dia. Passavam por mim, acenavam menos que o normal e iam se reunindo em grupos distantes. Comigo apenas a Aninha que comentava a briga de seu pai com a sogra na noite anterior. Para ser franca eu estava tão incomodada que não conseguia me concentrar naquela conversa familiar.
O portão da escola se abriu e fui entrando cabisbaixa, calada e acompanhada por Aninha que levou as mãos às costas acusando dor. Me perguntou se eu tinha absorvente. Sempre tenho para urgências como esta. Fui com ela ao banheiro. Chegamos atrasadas na sala de aula.
Ao entrarmos sofri um forte impacto. Estavam todos ao redor da mesa do professor. A professora de ciências a frente do grupo, toda animada, puxava os “parabéns pra você”. Era uma festa surpresa recheada de tortura inicial e deslanchando para fortes emoções com risos e muitas lágrimas de alegria. Foram poucos e intensos minutos. Logo tudo voltou ao normal.
Antes do intervalo tinha um tempo vago. Aproveitei para conferir a tradução da “Endless Love”. Peguei a letra e a tradução num site da internet. Aninha percebera uma palavra estrangeira com grafia errada e resolvi revisar todo texto:
My love / There's only you in my life / The only thing that's right
Meu amor / Há somente você na minha vida / A única coisa que é certa
My first love / You're every breath that I take / You're every step I make
Meu primeiro amor / Você é "tudo que respiro" / Você é cada passo que dou

Fiquei satisfeita com o resultado. Pensei em assistir os clipes que eu ainda não cortara, estava em dúvida entre três e só poderia colocar um. Tinha um do filme e dois com Lionel Richie e Diana Ross. Os demais eu havia descartado facilmente, mas agora a tarefa estava complicada e eu não queria quebrar a surpresa do momento e não podia discutir isso com nenhum de meus colegas. Provavelmente usaria o do filme Amor sem fim, dirigido por Franco Zeffirelli, ganhador de diversos prêmios em 1982 onde um casal de jovens, ele (Martin Hewitt como David Axelrod) com 17 anos e ela (Brooke Shields como Jade) com 15, vivem um forte caso de amor, mas têm que enfrentar a oposição do pai da adolescente. Foi tão marcante que ganhou um remake em 2014, dirigido por Shana Feste e com Alex Pettyfer e Gabriella Wilde como protagonistas.
A manhã foi transcorrendo normalmente, as aulas estavam por acabar, tinha terminado os exercícios propostos pelo professor de matemática. Estava perdida em meus pensamentos e tão absorvida por eles que o vibrar do telefone me assustou me fazendo saltar na carteira e deixar escapar um leve gritinho, por sorte, abafado. Na madeira da carteira a vibração se propagava e certamente muita gente percebera minha reação.
Olhei disfarçadamente o celular, tinha um recado que fez se abrir em meu rosto meu melhor sorriso.
- Amor de minha vida! Estou sofrendo e precisando da ajuda de sua presença. Não demore. Venha logo depois das aulas. Estou em casa, mas estou sofrendo enquanto te espero. Sua ausência dói demais.
Antes que o professor percebesse guardei o celular na bolsa e olhei em volta. As meninas riam e trocavam sussurros. Elas adivinharam que Lula tinha mandado um torpedo apaixonado.
Eu tivera alguns namoricos, inicialmente totalmente platônicos, depois nem tanto, mas para mim Lula era meu primeiro namorado de fato. Estávamos juntos há mais de dois anos. Exatamente dois anos, sete meses e três dias. Claro que eu fizera as contas com ajuda do meu celular naquela manhã enquanto seguia para a escola. Eu jamais seria tão precisa como jamais estivera tão apaixonada. Nosso namoro era cheio de segredos e intimidades. Segredos inconfessáveis para mim. Minhas colegas comentavam de tudo e eu preferia me fazer de totalmente inocente ficando abismada com a coragem delas. Ninguém precisava saber detalhes de meu namoro, nem minha mãe, nem minhas colegas, eu mesmo preferia não pensar naquele assunto, melhor era sentir na pele, no corpo, na boca, em toda parte as carícias que eu tentava retribuir.
Meu corpo estava ansioso pela presença de Luís Inácio ao meu lado. Ele trabalhava no escritório do meu tio junto com meu pai e lá todos o chamavam de Lula. O apelido era perfeito. Em determinados momentos eu me sentia acariciada inexplicavelmente por seus oito tentáculos e perdia a noção de tempo, espaço e até de mim mesma – eu estava perdida com aquele homem, e cada dia mais satisfeita e apaixonada por ele. Meus pensamentos divagavam e meu corpo exigia sua presença ao meu lado enquanto o ônibus se arrastava me levando aos braços dele.
Cheguei e o porteiro abriu antes que eu tocasse o interfone. Sorriu ou para mim ou da minha pressa enquanto me cumprimentava por meu aniversário. Agradeci acenando rápida e displicentemente entrando no elevador do prédio.
Terceiro andar, porta entreaberta. Ele já me esperava. Coração aos pulos. Entro silenciosamente. Ele queria me assustar e eu não ia facilitar para ele.
Ruídos no quarto e eu, sabendo que ele preparara uma surpresa, abro a porta e pulo quarto adentro gritando:
- Eu também te amo!